Fora dos Eixos

April 22, 2012 2:55 pm


Quando seu futuro é promissor, por qual razão você o temeria? Quando seu futuro se transforma no dia de hoje e não é bem do jeito que estava prometido, você faz o quê? O filme Jovens Adultos trabalha com essa premissa – tudo fora do lugar, nada como foi prometido e você não sabe o que fazer.

Charlize Theron, em mais uma estupenda interpretação, é Mavis Gary, uma ghost writer de ficção para adolescentes que vive o parágrafo acima. Deprimida, alcoólatra e boca suja, decide retornar à cidade onde vivia quando jovem com o intuito de reatar um namoro do colegial. O nome do alvo é Buddy Slade (Patrick Wilson), que está casado e tem uma filha recém-nascida: dois itens que são apenas meros detalhes para a anti-heroína maquiavélica e fora dos eixos.

O que acontece com Mavis é bem complicado. Ela está fortemente presa ao passado (observe a metáfora que é o carro dela) e decepcionada com seu presente, que é um futuro não planejado. Insatisfeita com a vida na cidade de origem, Mavis foi atrás de seus sonhos na cidade grande, ao contrário de seus colegas e familiares. Ela fez faculdade e tornou-se bem sucedida em seu trabalho, o que geralmente acontece com quem segue esse caminho. Mas no dia de hoje, só há o vazio promovido pela sensação de que o que ela fez não foi o suficiente para sentir-se satisfeita.

Ao voltar a Mercury, em Minnesota, Mavis observa que tudo por lá ficou do jeito que ela deixou. As pessoas não mudaram, mas ao contrário dela, está todo mundo aparentemente bem (sendo exceção Matt Freehauf, personagem de Patton Oswalt). O filme vai trabalhando com essas reflexões do que é felicidade para cada pessoa e as decisões que elas vão tomando para construírem sua própria vida – é definitivamente o roteiro mais espinhoso, imprevisível e profundo de Diablo Cody, bem mais parecido com os do seu extinto seriado United States of Tara.

Charlize Theron e Jason Reitman no set de filmagens.

Jovens Adultos é o mais novo filhote da amizade da roteirista e do diretor Jason Reitman. Anteriormente, ambos levaram para os cinemas o agridoce Juno e a comédia de horror Garota Infernal (este último apenas produzido por Reitman), mas é com esse terceiro filme que ambos estabelecem uma sintonia e ponto final. A direção de Reitman é certeira e se basta no que precisa ser posto na tela, um daqueles casos em que a lente da câmera se torna de fato os olhos do espectador. O roteiro de Cody esbanja personalidade e é saudosista até não poder mais. O contexto musical que a autora geralmente insere em suas tramas é quase uma personagem, lembrando bastante escritores como Elizabeth Wurtzel e Nick Hornby. Os atores estão em cena usando camisetas de bandas como The Breeders e Pixies.

Além do tímido desempenho na bilheteria, o que este filme tem de notável não é apenas seu contexto cheio de pequenas partes e seu tão comentado terceiro ato que convenceu Jason Reitman a assumir a direção, mas a sua simplicidade e honestidade para colocar à mesa assuntos tão delicados e abrangentes. Peter Travers, crítico da Rolling Stone, bem disse: “justo aviso: as risadas em Jovens Adultos deixam feridas”. A marcante atuação de Charlize Theron, o afiado roteiro e a trilha sonora repleta de clássicos do rock dos anos 90, também ajudam o filme em seu objetivo: partir corações, assim como a vida real faz, apesar de todos os sonhos.

Escrito por: Caio McFearless

Sweet Soul Alabama

March 27, 2012 1:57 am

Post atualizado em 02/04.

A cada geração, o universo libera um quantidade limitada de “soul” no mundo. São pouquíssimos os agraciados com essa característica. E sem dúvida, a Brittany Howard, do Alabama Shakes, faz parte desse seleto grupo. She’s full of soul!
Talvez você já conheça o Alabama Shakes. Eles estão na margem do mainstream faz alguns meses, inclusive sendo votados como umas das promessas para esse ano. O primeiro álbum, “Boys & Girls”, sai no dia 9 de abril, mas como já vazou, está no meu repeat faz algum tempo.
Olha aí o clipe oficial de “Hold On”:

Mágico, indeed. Esse southern rock americano encontra soul music encontra country encontra gospel é uma viagem tão bonita.
O primeiro single do álbum é “I Ain’t The Same”, que eles apresentaram para a Rolling Stone essa semana. Clique aqui para ver.
E se não bastasse o crescente sucesso por eles mesmos, no mês que vem eles entram em turnê com o Jack White. Hoje, o Alabama, em breve, o mundo ;P

Escrito por: Emílio Hentschel

Don’t say the day is over

February 28, 2012 1:07 am

Lá se foi o carnaval, o Oscar e o horário de verão. E antes que o verão em si termine, está aí o Summer Sounds #3 (mesmo que estejamos ansiosos pelo inverno. Não?)
Essa nova seleção é bright and shiny, pra colocar no ipod em um dia de sol! É só dar o play!

Summer Sounds #3 by Under Ϟ Thunder on Mixcloud

Tracklist:
1- Family Of The Year – St. Croix
2- Lovers Electric – Hearts Are Jaded
3- Neon Trees – Everybody Talks
4- Hungry Kids Of Hungary – Wristwatch
5- Of Monsters And Men – Little Talks
6- Butterfly Boucher – The Weather

Pra baixar, clique aqui com o botão direito e em “Salvar como…”

*A imagem dessa vez é do filme “Tinker Taylor Soldier Spy”, com o ótimo Gary Oldman. Adaptado do romance de John le Carré (que já foi filmado em 1979), o filme concorreu a 3 Oscars e levou o BAFTA de Melhor Filme Britânico esse ano.

Escrito por: Emílio Hentschel

Onde vivem os monstros

February 16, 2012 12:44 am

Em setembro do ano passado, o sexteto islandês Of Monsters And Men lançou seu primeiro álbum, “My Head Is An Animal”, em sua terra natal. Hoje, depois de eleita um dos destaques de 2011 e tendo o segundo EP alternativo mais vendido no iTunes EUA, alcançando mais de 100 mil cópias, eles estão em estúdio gravando a versão mundial do álbum de estreia, que deve chegar em abril.


Com produção de Jacquire King (Kings Of Leon, Modest Mouse) e mixado por Craig Silvey (Florence + The Machine, Arcade Fire), os indie-folkers (not-so-indie agora que assinados pela Universal) do Of Monsters And Men tem tudo para se tornar um dos grandes destaques de 2012. A primeira versão do álbum é fantástica, ele soa épico e tem harmonias lindas e em tantas camadas!
Imagino que a nova versão tenha apenas uma adição de material novo. O UϟT vai acompanhar! ;)

Escrito por: Emílio Hentschel

Eficiência e sutileza fazem de The Help um bom “feel good movie”

February 10, 2012 7:42 pm

Em Histórias Cruzadas, de Tate Taylor, nós somos apresentados a uma história num interessante período e local: o sul dos Estados Unidos da América (mais especificamente o estado do Mississippi) na década de 1960. Sabe-se que essa foi a época em que Martin Luther King travava batalhas pela igualdade dos negros na sociedade, ao mesmo tempo em que o preconceito no sul dos EUA era ainda mais espinhoso – sabe-se que tal região do país é conhecida por seu histórico de intolerância diante de grupos minoritários. É esse o quadro encontrado pela jornalista recém-formada Skeeter (interpretada por Emma Stone) ao retornar para a cidadezinha de Jackson.

Se o período é borbulhante em termos de acontecimentos históricos, Histórias Cruzadas decide abordar apenas a faceta doméstica e feminina do relacionamento da sociedade com as pessoas “de cor”, como são chamadas algumas vezes no decorrer do filme. Empregadas negras que trabalham muito e ganham pouco educando (e se afeiçoando aos) filhos de seus patrões brancos, estão presas à corrente do preconceito: suas mães trabalhavam como empregadas para brancos, e por falta de oportunidades, suas filhas farão o mesmo. Lá, elas encontram sempre a mesma situação, que é receber um tratamento autoritário e por vezes desrespeitoso de seus patrões, ao mesmo passo em que educam seus filhos, que se tornarão adultos como seus pais. A recém-abolida escravidão ainda projeta uma sombra de atraso no cotidiano dessas pessoas.

A aspirante a escritora Skeeter tem educação acadêmica e os horizontes mais expandidos do que os de seus vizinhos, e reconhece como são desnecessários o preconceito e as medidas tomadas pelos patrões, como a de construir banheiros apenas para seus empregados. A própria personagem também foi criada por uma negra, enquanto sua mãe mais se preocupava em ter status entre suas amigas. Quando Skeeter consegue um emprego no jornal local, decide falar sobre isso – ela vai escrever um livro repleto de relatos de empregadas negras em seus anos de trabalho nas casas de brancos.

Começando por Aibileen (Viola Davis) e depois partindo para a brilhante e rebelde Minny (Octavia Spencer), os relatos vão sendo recolhidos e escritos. Enquanto isso, Skeeter bate de frente com quem destrata as empregadas. E não demora muito para esse grande grupo que elas formam começar a vibrar com a audaciosa empreitada de Skeeter; e embora o livro seja um segredo, os brancos se mostram receosos diante do ar de mudança que invade suas vidas.

O longa foi baseado no romance A Resposta, de Kathryn Sttocket (amiga do diretor Tate Taylor), e, acima de tudo, vem recebido elogios pelas convincentes e notáveis interpretações de seu grande elenco feminino. Pode ser considerado um dos primeiros filmes “sérios” de Emma Stone, que consegue subir mais um degrau em sua carreira. Também há as marcantes atuações das veteranas Viola Davis, Sissy Spacek e Octavia Spencer. Bryce Dallas Howard e a recém-revelação Jessica Chastain brilham com graça ao lado das outras coadjuvantes. A parte técnica do filme também não deixa a desejar. Sua fotografia, seus planos e seu figurino sustentam bem a vibe de feel good movie.

Mesmo com sua boa estrutura, bonita decoração e sua contagiante empolgação, este filme anda também levantando debates entre seus espectadores e críticos, sobre o próprio retrato feito por ele. Ora bolas, os únicos problemas que os negros tinham no interior dos EUA durante os anos 60 eram apenas ter que usar um banheiro separado para eles nas casas de seus patrões? E essa trama pode ter uma inconsistência em seu espírito: quer ser antirracismo ao mesmo passo em que a possibilidade de mudança na vida dos negros é posta pelos brancos de cabeça mais aberta às diferenças? Apesar de tão bem feito e discutível (como o período em que a história acontece), Histórias Cruzadas não se deixa abalar pelos seus desdobramentos não-intencionais, e isso fica bem claro em seu clima positivista, que com traços de drama e comédia se estabelece como um filme bem definido que não tem pretensão de causar barulho.

Uma de suas grandes sacadas é optar pela boa e velha situação acontecida outrora mas não muito diferente do que acontece hoje em dia. Difícil de questionar o papel de um filme como esse em uma sociedade que ainda insiste em ter seus setores racistas e dá mais valor a quem é rico e tem status do que aos trabalhadores que a sustenta. Ainda mais quando ele tem em sua manga a carta da simpatia e da leve reflexão.

Escrito por: Caio McFearless